Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

Casa do Concelho de Góis (I) – A essência do Regionalismo


  Fernando J. Bandeira da Cunha (Dr*)

O êxito que constituiu a presença (pela primeira vez) da Casa do Concelho de Góis, com stand próprio, na FACIG 2011 em Góis, teve também a virtude de concluirmos que várias gerações desconhecem a história do Regionalismo no Concelho de Góis e também as migrações que levaram á constituição da Casa do Concelho de Góis em Lisboa.
Antes da criação da Casa do Concelho no ano de 1954 já a história do Regionalismo Goiense se escrevia com a constituição de várias Comissões de Melhoramentos e nas dificuldades do fluxo migratório para Lisboa.
     A primeira Comissão de Melhoramentos de Góis fica para a história como sendo a Comissão de Melhoramentos de Roda Cimeira fundada em 1923, oficialmente constituída em 1928 como Sociedade de Melhoramentos de Roda Cimeira. Fruto das primeiras necessidades que conduziram ás migrações da população da freguesia de Alvares para Lisboa, mas também do apelo da terra de nascimento e do sonho da sua modernização. Homens e mulheres sentiram que se deveriam reunir e juntar esforços para que a sua terra tivesse para os que teimaram em ficar e para os que dela nunca se esqueceram, maior qualidade de habitabilidade numa zona de
pinhal interior onde as vias de comunicação eram o bem mais escasso, mas essencial para o comércio, cultura e modernidade.
A migração para Lisboa tem o seu inicio, se bem que incipiente nos finais dos anos 20 (Ditadura Militar), atingindo o seu pico nos anos 40 e 50, em pleno Estado Novo Salazarista, com o empobrecimento (a bem do País) e a ausência de expectativas das populações do pinhal interior, onde se situa Góis. Não é pois de estranhar a ânsia do Associativismo Regionalista, um arrojo para a época, só possível pela forma estatutária com que se objectivava a dedicação desta gente á sua terra de origem, motivo de sonhos, em transportar para ela vivências, qualidades e modos de vida que sentiram com a sua presença vivida e esforçada em Lisboa.
Se no inicio nada foi fácil, muitos vivendo colectivamente nas Casas de Malta e abraçando trabalhos ditos menores como, varredores (almeidas), engraxadores, barbeiros, estivadores, aguadeiros, limpa-chaminés e moços de esquina, após a fase de instalação e consolidação surge a preocupação académica como factor de acesso a uma vida melhor no comércio ou na pequena industria.
Foi assim que se constituíram pequenos e depois grandes empresários nos ramos de pastelaria, mercearia, drogaria, armazéns de géneros alimentares, actividade gráfica e mais tarde, restaurantes e cervejarias.
Homens de experiência feitos muitos ficaram na capital outros mudaram-se para a “terra”, agora já com outros meios, conhecimentos e formação, montaram comércios e empresas que ainda hoje perduram em mãos familiares, ou não, de segunda ou terceiras gerações.
Se o fluxo de migração, teve origem na pobreza e na falta de expectativas de futuro, já a possibilidade do Associativismo Regionalista tem origem numa vida melhor e consolidada em Lisboa permitindo que o seu pensamento se virasse para as origens, na ânsia de contribuir para a sua modernização.
Nascem assim todos os anos Comissões de Melhoramentos constituídas por residentes locais e por goienses em Lisboa: Freguesia de Alvares: Sociedade de Melhoramentos de Roda Cimeira (1928), Sociedade de Melhoramentos de Amioso Cimeiro (1929), Comissão de Melhoramentos de Cortes (1930), Comissão de Melhoramentos de Relva da Mó (1933), Comissão de Melhoramentos de Roda Fundeira (1934), Comissão de Melhoramentos de Amioso Fundeiro e Lomba (1935), Liga de Melhoramentos de Chã de Alvares (1937), União Progressiva de Amioso do Senhor (1941), Comissão de Melhoramentos do Povo de Amieiros (1944), Comissão de Melhoramentos de Mega Cimeira (1946), Liga de Melhoramentos da Telhada (1946), Comissão de Melhoramentos de Alvares (1947), Comissão de Melhoramentos de Obrais (1950), Comissão de Melhoramentos de Simantorta (1950), Comissão de Melhoramentos de Algares (1951), Comissão de Melhoramentos de Amiosinho (1953) e Sociedade de Melhoramentos de Casal Novo (1953); Freguesia do Cadafaz: Liga de Melhoramentos da Freguesia de Cadafaz (1932) e Comissão de Melhoramentos da Cabreira (1953); Freguesia do Colmeal: União Progressiva da Freguesia do Colmeal (1931), Comissão de Melhoramentos de Ádela (1936), Comissão de Melhoramentos de Malhada e Casais (1953) e Comissão de Melhoramentos de Soito (1954); Freguesia de V.N. Ceira: Comissão de Lisboa de Propaganda e Melhoramentos em Vila Nova do Ceira (1931) e Freguesia de Góis: Sociedade de Iniciativas e Propaganda de Góis (1929), Associação de Melhoramentos e Assistência de Ponte do Sotam (1931) e  Liga de Melhoramentos da Folgosa (1950), Comissão de Melhoramentos de Cerdeira de Góis (1952), Comissão de Melhoramentos de Ribeira Cimeira e Fundeira (1952), Comissão de Melhoramentos de Ladeiras de Góis (1953), União Regionalista das Povoações do Sotam (1953) e Comissão de Melhoramentos de Piães (1954).
Surge assim em 1954 a necessidade de uma estrutura de apoio em Lisboa, concretizada na fundação da Casa do Concelho de Góis, que teve a sua primeira Assembleia Geral em 4 de Dezembro de 1954 de aprovação dos estatutos e corpos sociais. De imediato a Casa do Concelho de Góis em Lisboa, além de servir de espaço de convívio dos goienses residentes em Lisboa, torna-se espaço de apoio e de colaboração das Comissões de Melhoramentos, onde, por vezes pela noite dentro, se sonhava, se discutia e planeava formas de suprir carências com o objectivo de modernizar o Concelho de Góis.
Como o poder local, na época com escassos meios distribuídos pelo poder central e com pouco poder executivo, via no associativismo regionalista um importante apoio de ideias concretizadoras, fomenta o continuo aparecimento de Comissões de Melhoramentos que se foram multiplicando até aos nossos dias: Na Freguesia de Alvares: União Progressiva de Milreu e Povoações Limítrofes (1956), Comissão de Melhoramentos de Estevianas (1978), Comissão de Progresso Amigos da Coelhosa (1983) e Comissão Os Amigos de Fonte Limpa (1985); Freguesia de Cadafaz: Comissão de Melhoramentos de Candosa (1955), Grupo dos Amigos de Capelo (1960), União Recreativa do Cadafaz (1962), Grupo “A Bem da Sandinha” (1962), Liga dos Amigos de Mestras (1966), Comissão de Melhoramentos de Corterredor (1975) e Comissão de Melhoramentos e Preservação do Tarrastal (1999); Freguesia de Colmeal: Liga dos Amigos de Aldeia Velha e Casais (1964), União e Progresso do Carvalhal (1970), Grupo de Amigos do Sobral, Saião e Salgado (1977) e Associação Amigos do Açor( 2002) Freguesia de V. N. Ceira: Associação dos Amigos da Várzea Pequena (1978); Freguesia de Góis: Comissão de Melhoramentos do Esporão (1955), Comissão de Melhoramentos de Povorais (1956), Comissão de Melhoramentos do Vale Torto (1957), Liga dos Amigos de Bordeiro (1960), Comissão de Melhoramentos da Póvoa de Góis (1974), Comissão de Melhoramentos do Vale do Ceira-Costa de Góis (1979), Comissão de Melhoramentos das Luzendas e Casalinhos (1985), Comissão de Melhoramentos de Casêlhos e Portelas (1994), Associação de Moradores, Naturais, Descendentes e Amigos de Carcavelos (1995), Associação de Melhoramentos das Aigras, Comareira e Cerejeira
(1996), Associação de Melhoramentos de Vale de Godinho (1999), Comissão de Melhoramentos da Pena (2000), Associação Desportiva, Recreativa, Cultural, Juvenil e de Solidariedade Social dos Amigos de Vale de Moreiro e Manjão (2002) e a Associação dos Naturais e Amigos do Liboreiro (2003) que até hoje mantém o estatuto da mais recente Comissão de Melhoramentos do Concelho de Góis. Mais conhecida por ANALIB esta Comissão é a primeira do século XXI a fazer apelo no seu nome a todos os naturais do Liboreiro (independentemente da sua residência) e a todos os seus amigos.    
Estas últimas Comissões formadas no séculos XXI, nada têm a ver com os fluxos migratórios do passado mas sim pela possibilidade de obterem mais facilmente apoios financeiros para agregados populacionais onde faltem ainda estruturas básicas ou culturais para um mínimo de qualidade de vida.
Com as mudanças estruturais autárquicas que se avizinham, para concretização em 2012, com as fusões entre freguesias e o desaparecimento de algumas, contribuindo para um certo centralismo do poder autárquico a nível do Município, estamos em crer que as Comissões de Melhoramentos, titulares da consciência das suas populações, terão um amplo e importante papel no futuro na captação de fluxos financeiros para as suas populações.

(Fontes: “Memórias e Esperanças”, João Nogueira Ramos, 2004; Dez Reis de Gente, Adriano Pacheco, 2007; “sites”, Comissões de Melhoramentos)
                                                                                                                                                 
(*) Farmacêutico

publicado por penedo às 00:44

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