Terça-feira, 22 de Abril de 2014

A HISTÓRIA E OS MITOS II

Adriano Pacheco

 

A longa e misteriosa narrativa sobre a Herdade de Alvares é extraordinariamente maior, quando lembrada pela força dos mitos vividos por várias gerações, do que pelo seu próprio espaço físico configurado nos mapas terrestres. Esta caminhada histórica não se enquadra apenas nas delimitações do espaço, nem nas obrigações e coimas estabelecidas e exaradas no Foral. Revelam-se com fulgor através das tradições, dos mitos, das vivências que nela foram recriadas e vividas por várias gerações, estabeleceram vida própria e fizeram o seu percurso normal durante cincos séculos.

A dinâmica criada à volta deste espaço, ao longo dos tempos, transvazou para lá das regras estabelecidas e prolongou-se nos séculos dando autenticidade e consistência a um documento célebre que o transformou no mais vivo e interessante conjunto de normas régias que hoje nos interroga. A vida comunitária da região não começou nele, é certo, mas é nele que a história se baseia e nos coloca perante factos concretos e recortes intrigantes.

O tempo foi dando lugar aos tempos que foram criando marcos históricos, irrefutáveis testemunhos das épocas áureas, como foi a Fábrica de lanifícios movida por uma roda de enormes dimensões, através duma queda de água que nas pás caía estrondosamente, a qual ia transmitindo movimento pelo seu eixo, a uma antiquíssima máquina de fiação produzindo fio entrançado em faixas de burel que iam secar na encosta do Caratão, onde os mitos à sua volta se incendiavam na manufaturação deste velho e grosso tecido castanho. 
Essa roda viria a ser auxiliada por uma máquina (caldeira) a vapor, instalada logo à entrada do corpo central da fábrica, dando preciosa ajuda à roda em época de estio. São nossas as lembranças deste gigantesco engenho que fazia as delícias duma criança que encontrava encanto no seu maravilhoso e cadenciado movimento. As águas regressavam depois ao leito de onde tinham sido desencaminhadas para uma levada.

Para melhor combustão da lenha que alimentava caldeira desta máquina, foi construída a velha e eterna chaminé que hoje ainda é o testemunho mais visível dessa época áurea da indústria de lanifícios em Alvares. Conta-se que esta chaminé foi concebida e construída por um mestre pedreiro da Carrasqueira, criticada pela sua imponente edificação, com vaticínios de breve derrocada, ao qual o mestre respondeu que ainda haveria de fazer o pino na boca de saída lá nas alturas, depois de construída. Afinal ela ainda lá está forte, imponente e aprumada para orgulho de todos que a admiram, numa afronta às instalações da velha fábrica, última a produzir burel no País.
Temos escrito vezes sem fim que esta chaminé deveria ser tornada monumento da Vila, pela a autarquia, e preservada como património histórico mantendo-se como símbolo vivo duma época áurea desta região, que nem os tempos, nem os homens apagarão.

publicado por penedo às 00:28

link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.posts recentes

. Trajecto do Elèctrico  28

. Comendadores de Góis

. Comendadores de Góis em L...

. Comendadores de Góis

. GASTRONOMIA E AS GAMELINH...

. ...

. ll jantar solidário em Gó...

. CASA do CONCELHO de GÓIS ...

. Esporão

. II Noite Musical Solidár...

.links

.arquivos

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Dezembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Junho 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

blogs SAPO