Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010

O frio não nos impediu de sair de Lisboa

Sábado, arrancámos cedo, estava um dia frio e de sol. Chegámos à Serra e o ar estava limpo e gelado. Ui tão gelado. Abrir portadas para o Sol entrar, ir buscar lenha e acender o fogão. Com tarde bonita, demos um pulo até Góis. Vazia. Meia dúzia de pessoas pelas ruas, ninguém mascarado. Voltámos a casa.

Já perto da meia-noite, marido chamou-me. Vem cá ver.

E vimos flocos de neve a dançar. Depressa cliquei e cliquei, que estavam menos 1 grau lá fora. O carro ficou branquinho em poucos minutos. Na manhã seguinte, tal como uma criança em manhã de Natal, saltei da cama mal acordei.

O Penedo estava todo coberto de branco. Maravilhosa sensação.

Continuava muito frio. Mais para a tarde a chuvinha veio substituir os flocos.

Estava na hora de começar a arrumar as tralhas. Na manhã seguinte, 2ª feira, O Penedo mantinha o seu manto branco, mas a chuva continuava a cair. Da Estrada Nacional 2 até Alváres estava fechada pela neve e os carros parados.

A caminho de Lisboa, viemos pela Lousã até Condeixa, com o frio e a chuva a fazerem-nos companhia.

Lembrei este poema de Augusto Gil, Balada da Neve.

«...mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria... .
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho. /...»

A outra parte do poema - «da pobre gente que avança, e noto, por entre os mais, os traços miniaturais duns pezitos de criança...
E descalcinhos, doridos... a neve deixa inda vê-los, primeiro, bem definidos, depois, em sulcos compridos, porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador sofra tormentos, enfim! Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor?!... Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza, uma funda turbação entra em mim, fica em mim presa. Cai neve na Natureza e cai no meu coração.» - já não fazem parte do nosso dia a dia.

Apesar dos tempos que atravessamos serem tempos difíceis, as gentes e a criança do poema são de outrora. Não existem mais por cá. Fico feliz por isso.

 

 

 

http://coisas-de-tia.blogspot.com/

publicado por penedo às 09:33

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